O mercado imobiliário de Porto Alegre apresentou sinais de recuperação no primeiro semestre de 2026, mas os números também revelam um cenário de maior cautela por parte dos compradores. Segundo levantamento do Sinduscon-RS, em parceria com a Alphaplan Inteligência em Pesquisas e a Órulo, foram lançadas 1.205 unidades de médio e alto padrão na capital gaúcha entre janeiro e junho, alta de 18% em relação às 1.018 unidades registradas no mesmo período de 2025.
Ao mesmo tempo, o número de imóveis comercializados caiu 8%, passando de 2.234 para 2.059 unidades no comparativo anual. O movimento fez o estoque disponível chegar a 5.980 imóveis, crescimento de 35% em um ano e maior volume semestral desde a segunda metade de 2022. Para Daniel Claudino, especialista em mercado imobiliário, os dados mostram que o setor gaúcho atravessa uma fase de recomposição da oferta, mas ainda encontra obstáculos para transformar o aumento dos lançamentos em vendas.
“O crescimento dos lançamentos demonstra confiança das incorporadoras na capacidade de recuperação de Porto Alegre, mas o avanço do estoque mostra que o consumidor ainda está mais criterioso. Não basta colocar novos empreendimentos no mercado: é preciso oferecer produtos alinhados à capacidade de compra, à localização e ao momento financeiro das famílias”, avalia Claudino.
Um dos principais movimentos observados no semestre está justamente no perfil dos imóveis lançados. Studios e apartamentos de um dormitório responderam por cerca de 60% da nova oferta. Foram 367 unidades de um quarto e 361 studios, enquanto os imóveis de dois dormitórios representaram 20% e os de três dormitórios, 19%. Na avaliação de Claudino, a concentração da oferta em imóveis compactos acompanha mudanças no comportamento do consumidor e também cria oportunidades para investidores.
CONCENTRAÇÃO GEOGRÁFICA
A concentração geográfica dos lançamentos também chama atenção. Menino Deus liderou com 407 unidades, seguido por Cidade Baixa, com 276. Sarandi, Centro Histórico e Mont’Serrat completaram os cinco bairros com maior número de lançamentos. Juntos, eles concentram 86% das novas unidades de médio e alto padrão da cidade. Quando o indicador analisado é o Valor Geral de Vendas (VGV), entretanto, o cenário muda. Mont’Serrat liderou, com R$ 260 milhões, seguido por Bela Vista, com R$ 250 milhões, e Menino Deus, com R$ 186 milhões. A diferença evidencia que volume de unidades e valor movimentado são indicadores distintos e que o perfil dos empreendimentos varia significativamente de acordo com a região.
Apesar da retração acumulada nas vendas, há um sinal positivo no comportamento trimestral. Entre abril e junho, foram comercializadas 1.147 unidades, 26% a mais do que as 912 vendidas no primeiro trimestre. Para Claudino, essa reação pode indicar uma melhora gradual na disposição dos consumidores, embora ainda seja cedo para falar em retomada consolidada.
Os studios também lideraram as vendas no primeiro semestre, com 607 unidades comercializadas, equivalentes a 31% do total. Na sequência aparecem os imóveis de três dormitórios, com 499 vendas, e os de dois dormitórios, com 441. O cenário reforça, segundo o especialista, que não existe uma única tendência para o mercado imobiliário de Porto Alegre. Enquanto os compactos ganham espaço em número de unidades, imóveis maiores continuam relevantes em valor. Os apartamentos de três dormitórios, por exemplo, lideraram o VGV das vendas, com R$ 1,1 bilhão.

