A terça-feira, 11, concentra os principais eventos domésticos: o Banco Central divulga às 8h a ata da última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom) e, uma hora depois, o IBGE apresenta o IPCA de julho. O comunicado da semana passada trouxe uma mensagem que pode ser classificada como neutra a levemente dovish, e deverá ajudar a esclarecer justamente até onde o Copom acredita ser possível reduzir essa restrição e como está ponderando desaceleração da atividade, inflação de serviços, expectativas e ambiente externo.
O Goldman Sachs classificou o texto como mais curto, focado e amplamente neutro, destacando a ausência de forward guidance. O Copom reconheceu moderação gradual da atividade, ainda em nível resiliente, inflação corrente mais favorável e mercado de trabalho apertado, mas manteve um balanço de riscos com viés altista.
O texto também retirou elementos que haviam marcado a comunicação anterior. Desapareceram a referência explícita à “sequência do ciclo de calibração” e a construção segundo a qual diferentes trajetórias para a Selic poderiam assegurar a convergência da inflação e suavizar a variação dos agregados macroeconômicos.
Em seu lugar, o BC afirmou que pretende preservar uma “restrição adequada” para assegurar a convergência da inflação. A expressão não significa necessariamente Selic parada. A política monetária pode continuar contracionista mesmo com novos cortes, desde que os juros reais permaneçam suficientemente elevados.
TENDÊNCIA ALTISTA
O comunicado do Copom destaca que, pelo lado altista, permanecem riscos relacionados à desancoragem das expectativas, persistência dos serviços, efeitos de segunda ordem de petróleo e clima, câmbio e estímulos à demanda. Na direção contrária, uma desaceleração mais intensa das economias brasileira e global ou uma queda das commodities poderiam acelerar a desinflação.
“O El Niño merece atenção particular. O Copom reconhece riscos climáticos para a produtividade agrícola e os custos de energia, mas ainda não é possível assumir um efeito inflacionário em uma única direção. O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, destacou na Expert XP que episódios fortes anteriores tiveram resultados distintos, incluindo casos de impacto negativo sobre a inflação e de melhora da produtividade agrícola, tornando difícil extrair uma tendência histórica clara”, comenta Leandro Manzoni, da Investing.com.
Também será preciso observar se a ata comenta os efeitos temporários da energia elétrica. O bônus de Itaipu será creditado nas faturas emitidas em agosto, produzindo pressão baixista pontual sobre a inflação do mês e uma posterior devolução estatística quando o efeito desaparecer. A Aneel definiu R$ 872,1 milhões para o bônus deste ano. Para o Copom, mais importante do que essa volatilidade será a trajetória dos preços subjacentes.
INFLAÇÃO
A inflação de julho tende a repetir parte da mensagem apresentada pelo IPCA-15. A prévia avançou apenas 0,06% no mês e desacelerou para 4,52% em 12 meses. A composição também foi relativamente favorável, com núcleos e serviços abaixo das expectativas e queda de alimentos no domicílio e combustíveis.
Para o IPCA cheio desta terça-feira, a Warren projeta alta de apenas 0,03%, levando a inflação acumulada em 12 meses para 4,40%, abaixo do limite superior de 4,5% da banda de tolerância da meta. A instituição espera queda de 1,35% da alimentação no domicílio e deflação em vestuário, gasolina, etanol e diesel. Energia elétrica e passagens aéreas devem atuar na direção oposta.
Mais importante do que o índice cheio será novamente sua composição. A Warren projeta os serviços subjacentes em 4,86% em 12 meses, enquanto os serviços intensivos em trabalho permanecem acima de 7%. Esse continua sendo um dos principais obstáculos para uma flexibilização mais rápida. Uma inflação próxima de zero sustentada por alimentos e combustíveis tem uma leitura diferente de uma desaceleração que alcance também serviços, núcleos e componentes mais ligados ao mercado de trabalho.
Os dados de atividade completarão o teste brasileiro. Em maio, as vendas no varejo avançaram apenas 0,1%, ante consenso de 0,5%, enquanto o volume de serviços caiu 0,4%. Ambos ficaram abaixo das expectativas. Desde então, os sinais enfraqueceram. A produção industrial recuou 1,8% em junho, acompanhada de forte revisão negativa para maio, e os PMIs industrial, de serviços e composto ficaram abaixo de 50 em julho.

