O próximo presidente vai herdar a mesma aritmética fiscal, qualquer que seja o resultado deste domingo. A dívida bruta chegou a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB) em agosto, o maior nível desde março de 2021. O déficit nominal acumulado em 12 meses está em 9,48% do PIB, dos quais 8,86% do PIB correspondem a juros. Mais de 90% da despesa primária federal é obrigatória. A interpretação é do economista da Corano Capital, Bruno Corano, para quem a eleição não muda esses números, mas a forma como eles serão enfrentados e a credibilidade de quem vai enfrentá-los.
“O mercado já precificou boa parte de uma vitória de Flávio. Por isso, vejo uma assimetria clara: se Lula for reeleito, a correção tende a ser mais forte e mais rápida do que o ganho adicional que viria com uma vitória de Flávio. Câmbio e juros longos reagem primeiro, já na segunda-feira pós-eleição. Selic e inflação reagem com defasagem e vão depender do que o novo governo fizer nos primeiros seis meses”, diz.
No cenário A, no qual Lula consegue a reeleição, o risco é a continuidade de um ajuste gradual que, até aqui, não foi suficiente para estabilizar a dívida, agora somado ao custo das medidas anunciadas no ano eleitoral. No cenário B, com Flávio Bolsonaro vitorioso, a direção é mais favorável ao equilíbrio fiscal, mas o risco está na distância entre a promessa e a execução, sobretudo se os cortes de impostos vierem antes dos cortes de despesas. “Para o investidor, a decisão mais importante não é acertar o resultado de domingo. É ter uma carteira capaz de atravessar os dois resultados”, comenta o economista.
A Selic está em 13,75% ao ano, depois do quinto corte seguido, em 16 de setembro. A próxima decisão do Copom acontecerá em 4 de novembro, dez dias depois da eleição. O IPCA é de 4,58% em 12 meses até setembro, acima do teto de 4,5% e distante da meta de 3%. O mercado projeta inflação de 5,22% em 2026 e de 4,32% em 2027.
CENÁRIO
O dólar está em R$ 5,02, com o real já valorizado pela expectativa eleitoral. A projeção do mercado para o fim de 2026 é de R$ 5,13. Os juros longos estão reagindo a cada nova pesquisa. A taxa para janeiro de 2031 está em 12,65%, depois de chegar a 12,24% logo após o primeiro turno e voltar a 12,77% na semana passada. A dívida registra trajetória de alta, puxada principalmente pelo custo dos juros, e o déficit primário é de 0,62% do PIB em 12 meses. Para estabilizar a dívida, seria preciso um superávit primário em torno de 2% do PIB, e o mercado ainda projeta déficit de 0,40% do PIB em 2027. A economia mostra-se desacelerando sob juros altos, com crescimento projetado de 1,83% em 2026 e de 1,32% em 2027.
Depois do primeiro turno, o Ibovespa subiu 7,7% em um único pregão, o real se valorizou mais de 4% e a curva de juros chegou a recuar mais de 2 pontos percentuais em poucas semanas. Cerca de R$ 18,5 bilhões em capital estrangeiro entraram na Bolsa nesse movimento. O indicador que mede a demanda por proteção contra uma alta do dólar chegou ao maior nível desde 2011.
“Com as medidas anunciadas pelo governo nas últimas semanas, acredito que a taxa de câmbio de equilíbrio em caso de reeleição de Lula ficaria acima de R$ 5,50. As minhas estimativas para cada cenário indicam que, nas primeiras semanas após a eleição, o dólar ficaria entre R$ 5,40 e R$ 5,80 com Lula e entre R$ 4,80 e R$ 5,00 com Flávio. Ao longo de 2027, a moeda americana permaneceria acima de R$ 5,50 com Lula, enquanto não houvesse um plano fiscal crível, e abaixo de R$ 5,00 com Flávio, caso o ajuste avançasse no Congresso”, estima Bruno Corano.
Para a Selic no fim de 2026, o economista trabalha com 13,75% no cenário de reeleição de Lula, com interrupção dos cortes, e 13,25% no cenário de vitória de Flávio, com cortes de 0,25 ponto em novembro e dezembro. No fim de 2027, a taxa ficaria entre 13% e 14% com Lula, sem descartar nova alta, e entre 11% e 11,5% com Flávio, com espaço para algo perto de 10,5% em 2028. Os juros longos poderiam retornar à faixa de 14% a 15% com Lula, enquanto haveria espaço para recuo a 11,5% a 12% com Flávio.
COPOM
A reunião do Copom de 4 de novembro acontece dez dias depois da eleição. No cenário de reeleição de Lula, com um real mais fraco e expectativas de inflação pressionadas, vejo alta probabilidade de o Banco Central interromper os cortes e manter a Selic em 13,75% até ter mais clareza. Para o fim de 2027, a Selic tende a ficar entre 13% e 14% sem descartar a necessidade de nova alta caso as expectativas se desancorem.
Na inflação, o cenário de reeleição de Lula traz o risco de repasse do câmbio para alimentos, combustíveis e bens industriais, mantendo o índice de 2027 entre 4,8% e 5,3%, bem acima da meta de 3%. Somam-se a isso o impulso de demanda das medidas recentes e a pressão de custos que deve vir com o fim da escala 6×1. “O maior risco não é o número de um mês. É a perda de ancoragem das expectativas, que obriga o Banco Central a manter juros reais altos por mais tempo”, comenta.
Na Bolsa, a correção tende a se concentrar nos setores que lideraram a alta, como bancos, estatais como Petrobras e Banco do Brasil, varejo, construção civil e empresas domésticas sensíveis a juros. Exportadoras e empresas com receita em dólar tendem a funcionar como amortecedor. Na renda fixa, o pós-fixado é o grande vencedor no curto prazo. Prefixados e títulos atrelados à inflação de prazo longo sofrem perda de marcação a mercado, mas, depois da reprecificação, juros reais muito altos voltam a oferecer pontos de entrada para quem tem horizonte longo.

