O último pregão antes do segundo turno terminou com uma escolha clara nos preços: investidores reforçaram a aposta na vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), mas chegaram ao fim de semana pagando caro para se proteger de uma reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Na sexta-feira (23), o Ibovespa subiu, o dólar fechou abaixo de R$ 5 e os juros futuros recuaram. O movimento ganhou força à tarde, enquanto Wall Street caía, os juros americanos subiam e o petróleo renovava a pressão sobre a inflação mundial.
Conforme Leandro Manzoni, da plataforma Investing.com, a divergência ajuda a identificar o componente eleitoral da sessão. O mercado local antecipou a possibilidade de alternância de poder e de uma política fiscal capaz de abrir espaço para juros menores. Ao mesmo tempo, as opções mostravam receio de uma surpresa nas urnas no domingo (25).
Comprar ativos brasileiros e contratar proteção são decisões compatíveis: o investidor pode esperar uma alta, mas considerar que a perda, se estiver errado, será maior do que o ganho se acertar. O volume da Bolsa foi de R$ 30,7 bilhões. Apesar da recuperação final, o Ibovespa perdeu 0,17% na semana, enquanto o dólar recuou 1,58%. A sexta-feira favorável não apaga a cautela que marcou os dias anteriores.
Mercado brasileiro
Segundo o Valor Econômico, circularam nas mesas rumores de pesquisas de acompanhamento, os chamados trackings, favoráveis a Flávio. Reuniões de bancos com investidores também discutiram uma eventual vitória do senador, nomes para ministérios e prioridades econômicas. Esses relatos ajudam a explicar o ajuste de posições, mas não equivalem a pesquisas públicas com metodologia verificável. São informações sobre o que influenciou os negócios, sem assegurar o resultado eleitoral.
Na captura da Polymarket enviada às 19h57, os contratos indicavam aproximadamente 77% para Flávio e 23% para Lula. São preços de apostas sobre o vencedor, não percentuais de votos nem uma pesquisa de intenção de voto. O fundamento econômico da preferência é conhecido: parte dos investidores atribui à oposição maior disposição para conter despesas e reduzir o risco de uma trajetória crescente da dívida. Se essa expectativa ganhar credibilidade, pode diminuir a remuneração exigida para financiar o governo e favorecer o investimento privado.
A queda dos juros futuros também aumenta o valor presente dos lucros esperados das empresas e pode aliviar o custo de financiamento. Isso ajuda a explicar o interesse por companhias ligadas à economia doméstica e mais sensíveis aos juros.
O IPCA-15 contribuiu para o ambiente favorável. A alta de 0,32% ficou abaixo dos 0,43% esperados na pesquisa Reuters. A composição, porém, foi menos confortável: serviços subjacentes aceleraram e os aumentos ficaram mais disseminados. O dado favorece a continuidade de cortes graduais da Selic, mas oferece pouco respaldo, isoladamente, para reduções maiores.
“Lá fora, a combinação era adversa. O Brent avançou para US$ 116,72, e o rendimento do título americano de dez anos voltou a superar 5%. Petróleo caro aumenta o risco inflacionário e pode dificultar a flexibilização monetária. Juros americanos elevados também ampliam a concorrência por capital que os emergentes enfrentam. A aposta brasileira pressupõe que uma melhora doméstica possa compensar parte desse ambiente. A eleição não elimina seus efeitos”, diz Manzoni.

