Os indicadores do mercado de trabalho de abril nos Estados Unidos são o principal destaque da agenda econômica da próxima semana. Embora o foco atual do Federal Reserve (Fed, banco central americano) esteja na inflação — ainda que essa orientação não tenha sido explicitada no comunicado da última reunião —, o mercado de trabalho ganha relevância: números comportados tornam a condução da política monetária menos trabalhosa em meio às incertezas da disparada do preço do petróleo com o conflito no Irã.
Para isso, os indicadores de emprego precisam vir alinhados às expectativas, sem desaceleração brusca nem aceleração excessiva, sinalizando um mercado de trabalho saudável, sem pressões de aperto. Em outras palavras, baixa contratação e baixa demissão, conforme afirmou o presidente do Fed, Jerome Powell, em sua última entrevista coletiva à frente da autoridade monetária.
“Esse equilíbrio pode facilitar o trabalho do Fed de coordenar as expectativas de inflação por meio dos comunicados, sem necessidade de ventilar elevação (caso o mercado de trabalho volte a ficar apertado) ou queda (em caso de deterioração do emprego) da taxa de juros. Se o quadro inflacionário se deteriorar, com o mercado de trabalho comportado, sem resolução do conflito no curto prazo, o pivô que antes apontava para corte de juros ainda este ano — e que agora se desloca para 2027 — pode voltar a se inverter, com o mercado precificando uma alta”, comenta Leandro Manzoni, economista da plataforma Investing.com.
Esse não é, ainda, o cenário-base. O PCE de março, indicador preferido do Fed, registrou alta no índice cheio, puxado pela gasolina em meio ao conflito no Oriente Médio. O núcleo, contudo, permaneceu estável na base anual, embora em patamar ainda elevado. Esse patamar elevado decorre de outro choque de oferta: as tarifas implementadas por Donald Trump no ano passado. Na avaliação do Fed, o efeito das tarifas já estaria prestes a sair das estatísticas e permitiria, em tese, ao menos um corte no segundo semestre.
Movimento que, dado o choque do petróleo, não deve mais se concretizar. A duração e a extensão da guerra no Irã, e seus efeitos sobre a economia, definirão o comportamento da política monetária do Federal Reserve nos próximos meses. A estratégia do Fed é, em essência, a mesma dos demais bancos centrais: esperar para ver a incorporação dos efeitos do conflito nos índices macroeconômicos, sobretudo na inflação.
Ata do Copom: por que o tom foi tão duro?
Outro evento de peso na semana é a divulgação da ata do Copom. O mercado buscará entender o que levou o Banco Central brasileiro a adotar um tom tão hawkish em um documento que acompanha um corte de 25 pontos-base na Selic, decidido na última quarta-feira. A ata trouxe forte ênfase nos efeitos da guerra no Irã, com preocupação explícita quanto à extensão do choque de oferta, especialmente sobre as expectativas de inflação, que já dão sinais de desancoragem no Boletim Focus. A preocupação com a desancoragem figurou entre os fatores de risco de alta.
Combinada com uma atividade econômica que veio acima do esperado no primeiro trimestre — ainda que em desaceleração na comparação com 2025 — e com índices de inflação em reaceleração, especialmente no setor de serviços (movimento já em curso antes da guerra), o quadro abre espaço para que o BC comece a esboçar a interrupção do processo de calibração da Selic nas próximas reuniões, possivelmente a partir de julho.
Esse, contudo, ainda não é o cenário-base. A interrupção se concretizaria se as expectativas de inflação — especialmente para 2028 — continuassem se distanciando do centro da meta de 3% ao ano e se a guerra seguisse penalizando os preços do petróleo e dos insumos agrícolas e industriais. Por isso, será essencial acompanhar o Boletim Focus de segunda-feira, para entender como os agentes de mercado estão revisando suas projeções do IPCA para 2027 e 2028.
“Vale lembrar que, no caso da inflação de 2026 — que pode encerrar o ano acima do teto da meta, 1,5 ponto percentual acima do centro de 3% —, a política monetária já não dispõe de instrumentos para conter o choque, dada a defasagem de seis a nove meses para que seus efeitos se materializem”, comenta Leandro Manzoni, economista da plataforma Investing.com.
Na agenda doméstica: balança comercial de abril, Índice de Commodities do Banco Central referente a abril e produção industrial de março. Esta última contribuirá para o panorama da atividade econômica brasileira no primeiro trimestre. No exterior: ata da última reunião do Banco do Japão e, no sábado, dados do setor externo da China relativos a abril, que permitirão avaliar o impacto da alta do petróleo sobre a balança comercial chinesa.

