O Impacto fiscal do reajuste do Bolsa Família

Foto: Crédito: Lyon Santos / MDS

O governo reajustou em 15,04% os benefícios do Bolsa Família, elevando o valor mínimo de R$ 600 para R$ 691 e o benefício médio de R$ 675 para R$ 777. O percentual corresponde à variação acumulada do Índice Nacional de Preços ao Consumidor (INPC) entre março de 2023 e agosto de 2026. Os novos valores começarão a ser pagos em 19 de outubro, depois do primeiro turno e seis dias antes da data prevista para o segundo.

O anúncio, realizado a 17 dias da eleição, levantou três questões:

  • como a despesa será financiada;
  • se a medida viola a legislação eleitoral;
  • e por que o reajuste foi anunciado poucos dias depois de o governo negar que estivesse previsto no Orçamento de 2027.

O custo estimado é de R$ 5,8 bilhões entre outubro e dezembro de 2026. Para 2027, as projeções variam entre R$ 22,7 bilhões, segundo o governo, e R$ 23,2 bilhões, nos cálculos de Felipe Salto, Josué Pellegrini e Daniel Ferraz, da Warren Rena. O ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, afirmou que o reajuste será realizado sem aumento das despesas totais. Os recursos deverão ser obtidos por meio do remanejamento de outras rubricas, que será detalhado no Relatório de Avaliação de Receitas e Despesas de 24 de setembro.

Segundo apuração do Valor Econômico, o espaço de 2026 deverá vir principalmente de uma redução de aproximadamente R$ 6 bilhões na projeção das despesas previdenciárias, que estão crescendo menos do que o previsto. A Warren Rena avalia que essa acomodação permite preservar o cumprimento da meta fiscal de 2026. Como a instituição já projetava um reajuste de 9,5% para o Bolsa Família, o impacto adicional sobre seu cenário é de R$ 1,8 bilhão neste ano.

A meta central de resultado primário para 2026 é um superávit de 0,25% do Produto Interno Bruto (PIB), estimado em R$ 34,3 bilhões. Com a margem de tolerância de 0,25 ponto percentual, o resultado poderá variar entre equilíbrio fiscal e superávit de aproximadamente R$ 68,6 bilhões. É ao piso dessa banda, equivalente a resultado zero, que a análise da Warren se refere ao afirmar que a meta deverá ser cumprida. Em 2027, a meta central sobe para superávit de 0,5% do PIB, estimado em R$ 73,2 bilhões. A banda vai de 0,25% a 0,75% do PIB, ou de aproximadamente R$ 36,6 bilhões a R$ 109,8 bilhões.

O Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) prevê para 2027 um superávit efetivo de cerca de R$ 18,6 bilhões. Para efeito de cumprimento da meta, porém, o resultado chegaria a R$ 83,4 bilhões após a exclusão de R$ 64,7 bilhões em despesas autorizadas pela legislação.Nos cálculos de Salto, Pellegrini e Ferraz, se o custo anual de R$ 23,2 bilhões do reajuste fosse simplesmente acrescentado ao Orçamento, sem compensação, o superávit efetivo de R$ 18,6 bilhões seria convertido em déficit de R$ 4,6 bilhões.

Esse resultado ainda ficaria dentro da banda fiscal de 2027. Consideradas as exclusões de R$ 64,7 bilhões, o governo poderia registrar déficit efetivo de até aproximadamente R$ 28,1 bilhões e cumprir formalmente o limite inferior da meta, de R$ 36,6 bilhões. O governo afirma, contudo, que fará uma redução equivalente em outras despesas. Nesse caso, a projeção oficial de resultado primário será mantida, mas o reajuste ocupará espaço que poderia financiar outras políticas, permitir o desbloqueio de verbas ou melhorar o resultado fiscal.

Na avaliação da Warren Rena, mesmo o cumprimento das metas de 2026 e 2027 deixaria o resultado primário efetivo muito abaixo do necessário para estabilizar a relação entre dívida e PIB, especialmente diante do elevado custo dos juros. O Prisma Fiscal do Ministério da Fazenda reforça essa diferença. Embora os economistas tenham reduzido as projeções de déficit primário, a mediana para a dívida bruta subiu para 83,2% do PIB em 2026 e 87% em 2027.

A leitura da Warren é que bandas, deduções e ajustes na execução orçamentária ainda permitem o cumprimento formal das metas, mas sem produzir superávits efetivos suficientemente elevados para interromper o avanço do endividamento. Sem medidas estruturais sobre as despesas obrigatórias depois das eleições, a dinâmica da dívida continuará sendo o principal problema fiscal.

Fique por dentro!

Não fazemos spam! Leia nossa política de privacidade para mais informações.

Compartilhe:

Deixe sua opnião:

Últimas Notícias

IGP-M sobe 1,47% na segunda prévia de setembro, diz FGV
Transpetro prorroga prazo de inscrição em concurso para 21 de setembro
Portal Sebrae oferece simulador da Reforma Tributária
Governo paga hoje Bolsa Família com NIS final 1
O Impacto fiscal do reajuste do Bolsa Família
FIERGS mantém projeção de alta de 2,2% do PIB gaúcho
Bolsa Família terá reajuste de 15% em outubro
Ibovespa B3 sobe 0,24%, após queda da Selic, e dólar cai a R$ 5,13
Mercado imobiliário de Porto Alegre registra alta nas vendas e redução do estoque em julho