A geração que cresceu vendo campanhas antitabagismo é hoje a que mais fuma no Brasil. É o que mostra a pesquisa “A saúde do brasileiro, hábitos de vida e o uso de tecnologia em diagnósticos médicos”, do A.C.CamargoCancer Center com a Nexus, Pesquisa e Inteligência de Dados, que ouviu mais de 2 mil pessoas nas 27 unidades da federação. Entre os jovens de 16 a 24 anos, 19% se declaram fumantes ativos, de cigarros comuns ou eletrônicos, acima da média nacional (17%) e de todas as outras faixas etárias.
O levantamento mostra ainda que o risco não se limita a quem fuma: um em cada três brasileiros (33%) convive frequentemente com pessoas que fumam por perto, em casa ou no trabalho. A exposição é maior no Sul, com 41%, e entre os jovens de 16 a 24 anos, com 37%, a mesma faixa que lidera o consumo ativo. O tabagismo passivo também aumenta o risco de câncer de pulmão mesmo em quem nunca acendeu um cigarro.
“Levamos décadas para reduzir o tabagismo no Brasil. Ver a faixa mais jovem da população liderando o consumo e, ao mesmo tempo, a exposição involuntária mostra que essa conquista não está garantida. Em oncologia, o intervalo entre a exposição e a doença se mede em décadas: o que observamos hoje entre os jovens é um dado que ainda não virou diagnóstico”, afirma o Dr. Helano Freitas, Líder do Centro de Referência de Tumores de Pulmão e Tórax.A pesquisa também aponta que o tabagismo tende a estar associado a um conjunto mais amplo de comportamentos de risco. Entre os fumantes, 84% acumulam até quatro outros hábitos considerados nocivos na rotina, como sedentarismo e consumo de alimentos ultraprocessados e frituras em excesso. Por outro lado, entre quem nunca fumou, 18% declaram não ter nenhum hábito ruim, percentual que representa o dobro do registrado entre os fumantes (9%). Por outro lado, os ex-fumantes têm a maior concentração com apenas 1 hábito ruim de toda a pesquisa (44%) e baixas taxas de múltiplos deslizes, o que indica que a decisão de abandonar o cigarro costuma ser acompanhada por uma reorganização geral do estilo de vida, mantendo apenas um deslize residual no dia a dia.
Outro achado do estudo chama muita atenção. Entre os que se declaram fumantes, 63% avaliam a própria saúde como “ótima/boa”. Esse otimismo aparece com percentual ainda maior do que o das pessoas que nunca fumaram (61%), ainda que dentro da margem de erro da pesquisa, significando que os fumantes se sentem, no mínimo, tão saudáveis quanto os não fumantes.
Neste mês, existe a campanha nacional de conscientização sobre a prevenção, os riscos e o diagnóstico precoce do câncer de pulmão, conhecida por Agosto Branco. O INCA estima 781 mil novos casos de câncer por ano no Brasil entre 2026 e 2028.
“O tabagismo segue presente em cerca de 85% dos diagnósticos e o principal recado desta agenda continua sendo eliminar o hábito de fumar, mas também proteger quem está por perto. Vale lembrar que nunca ter fumado não afasta o risco e, portanto, nenhum sintoma respiratório persistente deve ser ignorado”, diz Helano Freitas.

