Empreender não é uma experiência igual para todos. A geração à qual o empreendedor pertence e o território onde está inserido influenciam diretamente as motivações para abrir um negócio, os desafios enfrentados, a forma de aprender, o uso da tecnologia, o acesso a redes de apoio e até a percepção de sucesso. Esses são alguns dos principais resultados da pesquisa “Gerações, Territórios e Empreendedorismo”, desenvolvida pelo Sebrae RS para compreender como esses fatores moldam a jornada empreendedora no Rio Grande do Sul.
O estudo, de abordagem qualitativa, reuniu 58 empreendedores de diferentes regiões do Estado em grupos focais online, segmentados por geração e por contexto territorial. A pesquisa comparou participantes de regiões com maior acesso à infraestrutura, serviços, crédito e ambientes de inovação com empreendedores de localidades mais vulneráveis, onde as oportunidades e as redes de apoio ainda são mais restritas.
A análise identificou que o empreendedorismo é resultado da combinação entre fatores geracionais e territoriais. Enquanto o contexto socioeconômico amplia ou limita o acesso a recursos, conhecimento e oportunidades, cada geração apresenta valores, comportamentos e formas distintas de se relacionar com o mercado, a inovação e o desenvolvimento dos negócios.
Para o Especialista em Competitividade Setorial do Sebrae RS, Fabiano Zortéa, compreender essas diferenças é fundamental para desenvolver soluções mais aderentes à realidade dos empreendedores gaúchos. Segundo ele, a pesquisa oferece um retrato que vai além dos indicadores econômicos e permite entender como as pessoas constroem suas trajetórias empreendedoras.
“Os resultados mostram que não existe um único perfil de empreendedor. Cada geração possui expectativas, formas de aprender e desafios próprios, ao mesmo tempo em que o território influencia diretamente as oportunidades disponíveis. Conhecer essa realidade permite desenvolver iniciativas mais assertivas e ampliar o impacto das ações voltadas aos pequenos negócios”, afirma.
CONHECIMENTO
Entre os empreendedores mais experientes, a pesquisa identificou uma trajetória marcada pelo conhecimento adquirido ao longo da vida profissional e pela valorização da experiência prática. Nesse grupo, o empreendedorismo costuma surgir como alternativa de reinvenção profissional ou continuidade da atividade produtiva, com forte presença da família na construção do negócio. Também há maior preferência por capacitações presenciais e uma relação mais cautelosa com as ferramentas digitais, apesar do reconhecimento de sua importância para a competitividade.
Os millennials, por sua vez, demonstram maior preocupação com planejamento, organização e crescimento sustentável. Zortéa destaca que a busca por qualificação constante, por meio de cursos, mentorias e consultorias, aparece como característica recorrente, assim como o uso estratégico das plataformas digitais para divulgação, relacionamento com clientes e fortalecimento da marca. “Para essa geração, sucesso significa equilibrar estabilidade financeira, qualidade de vida, realização pessoal e impacto positivo na família e na comunidade”, complementa.
Já a geração Z apresenta uma relação ainda mais natural com a tecnologia e vê o empreendedorismo como caminho para conquistar autonomia, flexibilidade e liberdade. De acordo com o estudo, muitos iniciam suas atividades como projetos paralelos, testando modelos de negócio e adaptando rapidamente suas estratégias conforme as demandas do mercado. Internet e redes sociais fazem parte do processo de aprendizagem, da tomada de decisões e da construção das oportunidades.
Outro aspecto relevante observado diz respeito às diferenças entre os territórios pesquisados. Em regiões mais desenvolvidas, o empreendedorismo tende a estar associado à busca por crescimento, autonomia e qualidade de vida. Já nas localidades com menor acesso à infraestrutura, crédito e serviços, abrir um negócio representa, com frequência, uma estratégia de geração de renda, emancipação social e fortalecimento da economia local.
Segundo Zortéa, os resultados servirão de base para que o Sebrae RS aperfeiçoe suas estratégias de atendimento aos diferentes perfis de empreendedores. A proposta é desenvolver soluções que respeitem as formas de aprendizagem, os valores e os desafios característicos de cada geração, sem perder de vista as particularidades de cada território. “Esse estudo nos ajuda a olhar para o empreendedor de forma mais completa. A partir desse conhecimento, podemos construir programas, conteúdos e experiências mais adequados às diferentes realidades, fortalecendo quem já empreende e preparando o ecossistema para as transformações das próximas gerações”, destaca.

